sábado, 3 de dezembro de 2011

Churras de Natal

A cozinha clara de janela aberta
e todos satisfeitos, palitantes...
Versam sobre o foi ou será
e a fumaça do boi, leve e solta,
traceja subindo, salvando-se ao Sol.

Os homens farejam, se mordem, se amam,
se falam ao celular, pecam no elevador...
Aqui, cansados de rilhar, estão todos felizes.
Pai, mãe, tia Clara, dona Lúcia...

O Natal chegou, mas as vésperas foram longas
e trouxeram uma companheira...
fruto de tanta espera, tanta aflição, angústia.

O Natal chegou, e aqui eles não sabem, não a veem,
não a ouvem e não podem tocá-la,
mas a afagam em abraços de votos.

As crianças correm e chutam embalagens;
tio Cesar estourou a champagne...
Estou feliz (talvez o dia e o lugar),
mas a dor – que é dor – está sempre lá.


- 3 de Dezembro de 2011.

domingo, 27 de novembro de 2011

BR-277

Será que você
ainda pensa em nossa vida
e em alguma falta
tenta me recompor?
Havia verdade
nas promessas não cumpridas?
Onde eu estava
quando você mudou?

Num viaduto
havia tanto pó
Eu – absurdo! –
me encontrei tão só...

Agora que todos os meus dias são iguais
eu lembro que com você
todos também eram iguais,
mas tinham você,
mas tinham você...

Num viaduto
havia tanto pó
Eu – absurdo! –
me encontrei tão só...


- Musicada em Fevereiro de 2011.

Um Crime Pessoal

Eu sou meu emprego,
o meu suado dinheiro,
a vingança do herdeiro,
a conta pra pagar...

E ontem eu rezei
um “Apesar de Você”,
mas não bastava ser
homem livre pra voar.

Estou, não, fui feito
um fantasma aqui dentro,
a fantasia e o medo,
um crime pessoal.

Então o meu segredo
compreende o veneno
na companhia dos erros
de um simples imortal.


- Musicado em Agosto de 2010.

Correntes do Relógio

Eu quero encontrar um novo dia
pra poder fazer o que eu gosto,
poder viver a nossa vida
quebrando as correntes do relógio.

Ah, não vá embora...
Fiquei comigo,
perca a hora.
Ah, o tempo não volta...
Esqueça o mundo
inteiro lá fora.

Eu por mais sozinho que se sinta
alguém está sozinho com você,
vamos sair e salvar as nossas vidas,
cantar contra o tempo até amanhecer.

Ah, não vá embora...
Fiquei comigo,
perca a hora.
Ah, o tempo não volta...
Esqueça o mundo
inteiro lá fora.



- Musicado em Janeiro de 2008.

Eu Não Fui Feito Pra Ninguém

Logo cedo eu me encontrei
c'um bom motivo pra voltar
a amar e percorrer
os meus acasos forjados.

Eu vou sonhar com alguém
que me procure em meu lugar,
fantasiando em você
um anjo certo para mim.

Só Deus sabe o quanto eu quis
seguir o meu caminho
com ela do meu lado,
minha e de mais ninguém...

A verdade me engoliu
e aos poucos me mostrou
que amar e perecer
caminham lado a lado.

Eu vou sonhar com alguém
que me procure em meu lugar,
alguém pronto pra morrer,
o anjo certo para mim...

Oh, Deus sabe o quanto eu quis,
mas eu estava errado e eu acho
que eu não fui feito pra ninguém...


- Musicado em Agosto de 2008.

Matá-lo E Morrer

"Matamos o tempo e o tempo nos enterra..."
- Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O tempo mudo, claro e turvo
vai seguindo e eu não sinto...
O segundo e o minuto são
um mesmo assassino...

Por quanto vou matá-lo e morrer?
A minha vida sem vontade de viver...

Um ventre sujo – grande mundo –
vai regendo o meu destino...
No absurdo, gera frutos
que me mostram o caminho...

Mas antes vou me cansar e perder
a juventude, a vontade de poder.

Há quanto tempo temo o tempo assim?
O recomeço, o meio alheio ao fim.


Por tanto vou matá-lo e morrer?
A minha vida sem vontade de viver
nas margens da estrada,
onde tudo leva a crer
que nada vale a pena,
só o tempo a percorrer
em busca de um Deus morto
pelas mágoas do próprio povo.


Há quanto tempo temo o tempo assim?
O recomeço, o meio alheio ao fim.


- Musicado em Abril de 2011.

O Mundo

Ao ver essas crianças
nas ruas entre os carros,
um mundo tão distante
diante dos meus olhos...
Eu sou a causa e o efeito,
a cela e o prisioneiro,
num mundo incompreendido
perdido a mim mesmo.

Pequenas mãos ingratas
engraxam o meu sapato,
um louco anarquista,
artista sem palco.
Eu vivo do meu jeito
com culpa e com medo
do pouco; da armadilha;
do muito e dos erros...

O mundo que me condena
no meu velho travesseiro
algo tão diverso
que não pude entender...

O mundo que me absolve
e me ama por inteiro,
também ele é o mesmo
e criado em mim...
Criado em  mim...
Criado por mim...


- Musicado em Janeiro de 2007.

sábado, 26 de novembro de 2011

Micro-Contos

Micro I

    Deus olhou pra sua mais nova criatura e disse:
    – Tu viverás noventa e sete anos.
    – Que bom! E qual será minha missão, Senhor?
    – Sei lá, rapaz. Te vira. Tens noventa e sete anos pra matar o tempo.


19 de Setembro de 2010.




Micro II

    Ela me olhou nos olhos e propôs: "Vamos ter um filho?". Depois ficou esperando a resposta com uma cara besta. Onde já se viu? Como alguém consegue ser tão egoísta ao ponto de incluir uma vida em seus planos? Então perguntei: "Será que essa criança gostaria de nascer?". Ela me chamou de ignorante e se virou pro outro lado.


18 de Setembro de 2010.

As Férias de Javé

    Certo dia, Deus finalmente cansou:
   – Adão! Venha cá. Cuide aqui para mim. – Disse ele. – Preciso me deitar um pouco.
    Seu fiel filho finalmente pôde tocar e conhecer a verdadeira árvore do pecado, e passou a cuidar da Terra com bastante carinho.
    Um tempo depois, novamente disposto, o Senhor pergunta a Adão:
    – Como andam as coisas por aí?
   – Bem, espero que não se importe, meu pai – Respondeu Adão, com certa sublimidade –, mas encontrei alguns defeitos na sua obra e me senti a vontade pra fazer algumas modificações. Acabei com o mal e todo o efeito que ele causa, como a guerra, fome, tristeza, ignorância, inveja...
    – O que?! Você destruiu minha utilidade pra esse povo! Agora terei que inventar outra coisa pra fazer...


16 de Setembro de 2010.

Homo Servus Servus

Encontrarei a minha liberdade
ao ser fiel a mulheres e vinho.
Respeitarei a minha vontade
vivendo às rédeas do instinto.

Eu posso fazer o que eu quiser
Eu posso ser rei se eu quiser
Eu posso poder o que eu quiser
Morderei a fruta que eu quiser

Mas outro lado insiste
em algo divino
Um velho artista
que rege o destino
pensando em voz alta
“Veja, meu filho!
Um escravo bobo
morrendo sozinho”.


- 20 de Setembro de 2010.

Lembranças

Veja você mesmo o que eu encontrei:
pedaços de nós mesmos em um dia qualquer
em uma foto rasgada - pedimos perdão
ao nosso passado...

Os seus olhos parecem não acreditar
nas horas que passam...
O vento no seu rosto, as lágrimas que não secam.
Outono, verão, primavera, inverno...
Voltamos atrás, lembrança por lembrança.
O medo no rosto, duas crianças,
brinquedos quebrados, monstros de infância...
Tive sorte por te amar...

Eu vejo no seu jeito que tudo se desfez
e nada será feito - perdemos a fé.
Perdemos a coragem e pedimos perdão
ao nosso passado...

Os seus olhos parecem não acreditar
nas horas que passam...
O beijo e o seu gosto,
as marcas que eu não quero.
Outono, verão, primavera, inverno...


- Musicado em Março de 2008.

Sol Em Sol

Estou perdido em busca dos senões,
em busca dos porquês
que todas as razões
deixaram-me em tão
tênue situação
Preso a você... Preso a você.

Um lençol anil abriga os mortais,
a vida dos fiéis
das plantas e animais
Brotaram-se então
morrer na contra-mão
Preso a você... Preso a você.

Eu conto os dias pra ver o Sol
beijar meus lábios com sua luz.
Hoje choveu a tarde inteira
e eu pensei tanta besteira
e em Sol.


- Musicado em Março de 2011.

Eu

Hoje eu acordei comigo
eu rolei e ri sozinho
eu fiz cócegas no meu pé
depois me levei café

naquela bandeja que um dia foi nossa,
a velha sentença finou a nossa história.

Hoje eu acordei com medo.
Após um sonho, o pesadelo.
Me abracei e me acalmei,
fiz carinho em meu cabelo

daquela maneira que um dia foi nossa
a velha sentença finou a nossa história.

Hoje eu acordei tão nada
e me contei duas piadas.
Me fiz rir até chorar
e não consegui parar.
Eu chorei sem parar
Eu chorei sem parar...


- Musicado em Agosto de 2010.

O Escudo

Impassiva-me a alma
este crasso escudo.
Me refuto à causa:
há Deus ao mundo.

Troca-se o olhar,
jamais o coração.
Há pedras, não mar,
jaz-me dura a razão.

Adormece em meu silêncio,
em bruta concha – o desejo.
A cela vela: o velho medo.

Anoitece o esquecimento
sem platéia, o meu segredo
quase deixa de existir.


- 15 de Abril de 2011.

InSolitude Poética

Hoje – cansado de falar sozinho –,
eu devo ter crescido alguns anos...
Apanhei um Dunhill dos galhos de Pandora
e o ateei com meu conhecimento.

É tão difícil abrir os olhos
Quando o que vejo é espelho:
um bicho pessimista
acuado pela vida
que renuncia aos beijos
por medo... do escarro.

Até qual quando o vento será fardo?
Vós... que me fizestes tão ignaro
a colher poesias de gaiola
de urna, de caixa, de galho...

É tão difícil abrir os olhos
Quando o que vejo que o Quando
um bom tempo já se passou
e há, ainda hoje, cravado em meu peito
aquele dia, aquela voz...

O tempo que passou, passou
e não deteve-se a me curar.


- 15 de Junho de 2011.

No Ônibus

Sento em um banco vago
e divago sobre a vida,
sem futuro ou passado
submerso à fantasia.

Meus olhos seguem a avenida
e freiam sempre com os carros;
os passageiros a deriva
se avultam ao meu lado...

             (!!!)

Eis que me chega de surpresa
a fragrância, o doce perfume
que deforma meu sorriso
num golpe sinestésico...

             Ah...

Saudade tem um nome, um rosto
um jeito tão peculiar de sorrir...
O que posso eu senão regredir
às alegrias de antanho?

Saudade tem um nome, um gosto
que nasce amargo na garganta
e morre quente no estômago...

Desvio o pensamento.


- 15 de Abril de 2011.

Tornado-me

Embarcara-se o tornado
em uma rajada de vento
que passou em minha vida
tão rápido, ah, tão intenso.

O que era? Já não é...
Ou nunca foi – não sei.

Contorceu-me a vida
me comprimindo à parede,
nesta cama infinita,
tua falta em meu presente.

O que é? Já não foi...
Ou não era: nunca sei.

Ah, bela cobra imaculada
confortou-se em meu peito,
deu-me tudo, deixou nada,
hoje rogo teu veneno.


- 15 de Abril de 2011.