Estou há dias deitado no conforto desta pedra úmida, à beira de um córrego onde deságua um esgoto fétido e obscuro. Impregnado à correnteza, o podre e o ignóbil iniciam um ciclo nos pulsares do meu peito e se fecham diante de mim em uma forma idiota e primitiva: o verbo. É preciso entender o esgoto para me entender. É preciso ter sido opressor e hoje chorar a falta do oprimido. É preciso ter sentido o arrependimento nascendo na garganta, descendo pelo peito e alojando-se ainda quente no estômago. É preciso queimar a língua no próprio vômito. É preciso... Bem, talvez não seja preciso nada, estou há dias deitado nesta pedra úmida, e os únicos que ousam se aproximar são das piores raças de ratos e baratas.
– Eu não estou preocupado comigo...
– Hã? Quem?
– Eu, aqui em baixo.
– E o que dizia? – Senti inveja daquela casca envernizada.
– Eu dizia que não me importo por tê-la perdido. Eu não ligo pra isso, não to nem aí pra mim. Mas eu gosto dela, e eu me importo com ela. Sinto-me responsável por não deixá-la perder o tudo que tenho a oferecer. Com toda certeza ela seria feliz ao meu lado, esta certeza é que me faz precisá-la. Eu a amo e não posso deixá-la me perder..
– Pode ser que ela encontre alguém que a faça feliz, não é? Ou pode ser que... – Mas não terminei a frase, um único pisão e – pronto! – estavam resolvidos todos os problemas daquela criatura.
Ah, se fosse tão fácil assim e houvesse a disposição algum sapato duzentos e seis... Cansei e aqui estou: Há dias no conforto desta pedra, somente a espera de alguém que faça algo por mim.
Ah, se fosse tão fácil assim e houvesse a disposição algum sapato duzentos e seis... Cansei e aqui estou: Há dias no conforto desta pedra, somente a espera de alguém que faça algo por mim.
- Concluído em 4 de Setembro de 2009.